A semente da esperança: compreender e respeitar o outro na sua complexidade
- José Carlos Campos Velho

- 21 de jan.
- 3 min de leitura
"Ser empático é ver o mundo com os olhos do outro e não ver o nosso mundo refletido nos olhos dele."
Carl Rogers
Por Camille Staudt Jahnke
A empatia é um dos pilares mais relevante das interações humanas. E como citado anteriormente, conforme Carl Rogers “ser empático” não pode ser visto com um olhar superficial como projeção pessoal ou simpatia, ao contrário, exige uma consciência de não julgamento e escuta para compreender o outro na perspectiva dele. No artigo de publicado Brazilian Journal of Health Review, "Relação médico-paciente, a importância de um atendimento humanizado" é destacado que, há alguns anos atrás, a disciplina de humanização não existia e a medicina era fortemente centrada na fisiopatologia e na cura. O curso de medicina, portanto, possuía uma ótica voltada para o homem como objeto a ser estudado, observado ou tratado, sem considerar sua pluralidade humana, suas múltiplas questões, expectativas, suas perspectivas e muito menos seu contexto de vida. A relação entre o médico e paciente era paternalista e verticalizada. Na minha visão, a humanização na medicina ainda está em processo de construção, pois a formação ainda permanece muito centrada no aspecto biológico. No entanto, é imprescindível espaços de reflexão e disciplinas que tenham a visão humanizada inseridas ao longo do currículo, como acontece na Universidade Franciscana, porque “plantam” uma semente de esperança para que essa realidade se transforme. A humanização pressupõe a valorização das emoções, da empatia, da compaixão e da assistência afetiva desde o momento em que o paciente entra em um serviço de saúde.
Nesse sentido, é fundamental que o vínculo estabelecido seja bidirecional e horizontal, como é citado no texto, permitindo que o sujeito tenha autonomia para escolher, junto ao médico, o que é mais adequado para sua realidade. Por exemplo: um paciente asmático pode necessitar de um tratamento moderno, mas só dispõe de recursos para adquirir uma “bombinha” mais antiga. Cabe ao médico ter sensibilidade para ajustar a conduta conforme as possibilidades do paciente, sem perder de vista a eficácia terapêutica. E, nem sempre o tratamento se resume a remédios, muitas vezes o cuidado passa para escuta ativa, atividades lúdicas, sentir-se valorizado e integrado conforme o seu contexto de vida. O tratamento é um contexto amplo, ou seja, não é apenas focado no biológico, mas sim no psicológico, social e cultural, reconhecendo o paciente como um ser integral.
Durante minha vivência no hospital psiquiátrico, houve possibilidade de perceber de forma ainda mais clara a importância da humanização no cuidado. Nesse ambiente, o paciente muitas vezes chega fragilizado, carregando estigmas sociais e emocionais, além de enfrentar o desafio de estar em lugar que ele percebe como hostil. Esse contato com os pacientes demonstrou que não basta usar anamnese pronta: é necessário acolher, escutar e compreender a subjetividade de cada indivíduo, respeitando sua história, suas emoções e seu contexto de vida. Logo, eu afirmo: os pacientes tem muito além da doença para nos oferecer, eles nos proporcionam o conhecimento de suas vivências - isto tem um valor inestimável-.
O paciente deve ser protagonista do atendimento, e o médico precisa desenvolver uma comunicação respeitosa e com ternura, capaz de compreender o outro em sua pluralidade. Sem isso, não haverá qualidade no cuidado e nem adesão ao tratamento. A adesão e a qualidade dependem, de forma inexorável, da humanização das ações médicas. Além disso, o uso de atividades lúdicas e artísticas pode ampliar a dimensão do cuidado, tornando o ambiente menos hostil e favorecendo a expressão das emoções. Essa reflexão evidencia que a medicina não deve se limitar à técnica, mas precisa integrar ciência e humanidade, reconhecendo o paciente como sujeito integral.

Camille S. Jahnke é acadêmica de Medicina da Universidade Franciscana,
em Santa Maria, RS




Comentários